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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

VATICANO II E MARIA - VII

Maternidade espiritual

A Santíssima Virgem, predestinada ― desde toda a eternidade, no desígnio da encarnação do Verbo divino ― para Mãe de Deus, foi na terra, por disposição da divina Providência, a Mãe do Redentor divino, mais que ninguém sua companheira generosa, e a humilde escrava do Senhor. Concebendo a Cristo, gerando-o, alimentando-o, apresentando-o no templo ao Pai, sofrendo com seu Filho que morria na cruz, ela cooperou de modo absolutamente singular - pela obediência, pela fé, pela esperança e a caridade ardente - na obra do Salvador para restaurar a vida sobrenatural das almas. Por tudo isto, ela é nossa mãe na ordem da graça.

Medianeira

A maternidade de Maria, na economia da graça, perdura sem cessar, desde o consentimento que ela prestou fielmente na anunciação e manteve sem vacilar ao pé da cruz, até a consumação final de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao céu, não abandonou esta missão salutar, mas, pela sua múltipla intercessão, continua a obter-nos os dons da salvação eterna. Com seu amor de Mãe, cuida dos irmãos de seu Filho, que ainda peregrinam e se debatem entre perigos e angústias, até que sejam conduzidos à Pátria feliz. Por isso, a Santíssima Virgem é invocada, na Igreja, com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Amparo e Medianeira. Mas isto deve entender-se de modo que nada tire nem acrescente à dignidade e à eficácia de Cristo, Mediador único.
Nenhuma criatura pode colocar-se no mesmo plano que o Verbo encarnado e redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de modo diverso pelos ministros sagrados e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, única, se difunde realmente em medida diversa pelas suas criaturas, assim também a única mediação do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas uma cooperação múltipla, embora a participar da fonte única.
A Igreja não hesita em atribuir a Maria uma função assim subordinada; sente-a até continuamente e recomenda-a ao amor dos fiéis, para que, apoiados nesta protecção maternal, eles se unam mais intimamente ao Mediador e Salvador.

VATICANO II; Lumen gentium, 61-62.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

VATICANO II E MARIA - VI

A Virgem Maria depois da ascensão

Foi vontade de Deus manifestar solenemente o sacramento da salvação humana, só depois de ter enviado o Espírito prometido por Cristo. Por isso, vemos os apóstolos, antes do dia do Pentecostes, assíduos e unânimes na oração, com algumas mulheres e com Maria mãe de Jesus e os irmãos deste" (At 1,14), e vemos também Maria implorando com suas preces o dom do Espírito, que na anunciação, já a tinha coberto com sua sombra. Finalmente, a Virgem Imaculada, que fora preservada de toda mancha da culpa original, terminando o curso de sua vida terrena, foi levada a glória celeste em corpo e alma, e exaltada pelo Senhor como Rainha do universo, para que se parecesse mais com o seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte.

Maria, escrava do Senhor,
na obra da redenção

É um só o nosso Mediador, segundo as palavras do Apóstolo: “Porque há um só Deus, também há um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, verdadeiro homem, que se ofereceu em resgate por todos” (1Tm 2,5-6). A função maternal de Maria para com os homens, de nenhum modo obscurece ou diminui esta mediação única de Cristo, antes mostra qual é a sua eficácia. Na verdade, todo o influxo salutar da Santíssima Virgem em favor dos homens não é imposto por nenhuma necessidade intrínseca, mas sim por livre escolha de Deus, e dimana da superabundância dos méritos de Cristo, funda-se na sua mediação, dela depende absolutamente e dela tira toda a sua eficácia; e, longe de impedir, fomenta ainda mais o contacto Imediato dos fiéis com Cristo.

VATICANO II; Lumen gentium, 59-60.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

IRMÃOS DE CRISTO

Somos Seus irmãos porque Sua Mãe ouviu a palavra e a pôs em prática

A Virgem Maria foi obediente quando disse: “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Pelo contrário, Eva foi desobediente, tendo desobedecido quando era ainda virgem. E assim como Eva, desobedecendo, se tornou causa de morte para si mesma e para todo o género humano, assim também Maria, tendo por esposo aquele que lhe tinha sido antecipadamente destinado mas mantendo-se virgem, se tornou, pela sua obediência, causa de salvação para si mesma e para todo o género humano. […] Porque o que foi ligado só pode ser desligado quando se desfaz o nó, de tal maneira que um primeiro nó é desatado por um segundo, tendo o segundo a função de desatar o primeiro.
Era por isso que o Senhor dizia que os primeiros seriam os últimos, e os últimos os primeiros (Mt 19, 30). E também o profeta afirma a mesma coisa, ao dizer: “Em lugar dos teus pais, virão os teus filhos” (Sl 44, 17). Porque, ao tornar-Se “o Primogénito dos mortos”, ao receber no seu seio os pais antigos, o Senhor fê-los renascer para a vida em Deus, tornando-Se Ele mesmo “o princípio” (Col 1, 18), já que Adão fora o princípio dos mortos. É também por isso que Lucas começa a sua genealogia pelo Senhor, fazendo-a depois remontar até Adão (Lc 3, 23ss.), indicando assim que não foram os pais que deram a vida ao Senhor, mas foi Ele, pelo contrário, que os fez renascer no Evangelho da vida. Da mesma maneira, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque aquilo que a virgem Eva tinha atado pela sua incredulidade foi desatado pela Virgem Maria pela sua fé.

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir ;
Contra as heresias, III, 22.

sábado, 20 de setembro de 2008

SANTA MARIA MÃE DE DEUS

Tornando-se homem, Cristo renova o homem.

Para venerar na verdade e cultuar com piedade o mistério da festa de hoje, é preciso, irmãos muito amados, não cometer erro algum a respeito da Encarnação do Senhor, nem admitir qualquer opinião indigna de sua divindade: há um perigo semelhante tanto em não reconhecer nele a verdade de nossa natureza, quanto em negar a igualdade de sua glória com a de seu Pai. Assim, quando nos aproximamos do mistério do nascimento de Cristo, no qual ele nasceu da Virgem Mãe, afastemos para bem longe de nós a escuridão dos raciocínios terrenos, e que a fumaça a sabedoria mundana se retire dos nossos olhos iluminados pela fé. Pois divina é a autoridade em que cremos, divina é a doutrina que seguimos.
Quer voltemos nosso ouvido interior para o testemunho da Lei, quer para os oráculos dos profetas ou para a proclamação do Evangelho, é sempre verdadeira a palavra que São João proferiu, cheio do Espírito Santo: No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (Jo 1, 1). E é igualmente verdade o que acrescenta o mesmo evangelista: O Verbo se fez carne e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto do Pai como Filho único (Jo 1, 14). Em ambas as naturezas o Filho de Deus permanece ele mesmo, assumindo a nossa natureza sem perder a sua própria; tornando-se homem, renova o homem, permanecendo imutável em si mesmo.
A divindade, que ele tem em comum com o Pai, nada perdeu de seu poder supremo, nem a forma de servo violou a forma de Deus, porque a essência soberana e eterna, que se inclinou sobe o género humano para salvá-lo, nos transportou para a sua glória sem deixar de ser o que era. Assim, quando o Filho de Deus ora se reconhece inferior ao Pai, ora se diz igual a ele, indica que verdadeiramente reúne em si as duas naturezas: a inferioridade prova a natureza humana, a igualdade declara a natureza divina.
Por conseguinte, o nascimento do Filho de Deus na carne não lhe tirou nem acrescentou nada, pois a essência imutável não pode nem diminuir nem aumentar. O Verbo se fez carne não significa que a natureza divina se tenha mudado em carne, mas que a carne foi assumida pelo Verbo em unidade de pessoas. O termo “carne” exprime aqui o homem na sua totalidade, ao qual o Filho de Deus se uniu nas entranhas da Virgem fecundada pelo Espírito Santo e nunca destituída de sua virgindade. Essa união foi tão íntima que o que tinha sido gerado da essência do Pai fora do tempo é o mesmo que nasce, no tempo, do seio da Virgem. Não poderíamos ter sido libertos dos laços da morte eterna, caso não se tivesse humilhado na nossa condição aquele que permanecia todo poderoso na sua.


São Leão Magno, papa: Sermões
Sermo 7 in Nativitate Domini, 1-2
(Sources Chrétiennes 22, 136-138)

domingo, 14 de setembro de 2008

VISITAÇÃO I

“Donde me vem esta graça
de que a mãe do meu Senhor venha até mim?”


"Tu és bendita entre as mulheres e o fruto do teu ventre é bendito. Donde me vem esta graça de que a mãe do meu Senhor venha até mim?" Estas palavras: "Donde me vem esta graça?" não são sinal de ignorância como se Isabel, toda cheia do Espírito Santo, não soubesse que a mãe do Senhor tinha vindo até ela de acordo com a vontade de Deus. Eis o sentido das suas palavras: "Que fiz eu de bom? Em que é que as minhas obras são tão importantes que a mãe do Senhor venha ver-me? Serei uma santa? Que perfeição, que fidelidade me mereceram esta graça, a visita da mãe do Senhor?" "Porque ainda a tua voz não tinha aflorado os meus ouvidos e já o meu filho exultava de alegria no meu seio". Ele tinha sentido que o Senhor viera para santificar o seu servo ainda antes do seu nascimento.
Pode acontecer que me chamem louco os que não têm fé por eu ter acreditado nestes mistérios!... Porque o que é considerado loucura por essa gente é para mim ocasião de salvação. Na verdade, se o nascimento do Salvador não tivesse sido celeste e bem-aventurado, se não tivesse tido nada de divino e de superior à natureza humana, nunca a sua doutrina teria atingido toda a terra. Se, no seio de Maria, tivesse havido apenas um homem e não o Filho de Deus, como teria sido possível que nesse tempo, e ainda hoje, fossem curadas todas as espécies de doenças, não só do corpo mas também da alma?... Se reunirmos tudo o que se diz acerca de Jesus, podemos constatar que tudo o que foi escrito a seu respeito é considerado divino e digno de admiração, porque o seu nascimento, a sua educação, o seu poder, a sua Paixão, a sua Ressurreição não são apenas factos que ocorreram naquele tempo: eles agem em nós ainda hoje.


Orígenes (c. 185-253), presbítero e teólogo 7ª homilia sobre S. Lucas